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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tem sido bom, gostaria de dizer.

Do alto do 12º andar, na sala estrategicamente decorada em tons de marrom, silêncio. Quebrado apenas pelo farfalhar da cauda do cachorro, que espreguiça toda sua carência e apóia a cabeça no meu pé. A “folha” em branco na tela do computador já me desafiou mais do que nunca. Mas talvez agora que todos foram dormir e os amigos desistiram de chacoalhar a minha tela pedindo atenção, talvez agora, que o silêncio da sala e o cachorro carente são os únicos a me fazer companhia, eu consiga acalmar a percussão acelerada que existe dentro de mim, abafar esse eterno samba enredo que não se cala, e escrever um conto qualquer.

Acontece que tem momentos que escrever se torna confessional. E têm aquelas palavras que eu sempre juro nunca soltar assim como qualquer coisa. Mas que estão estampadas na minha cara. Não vê? Deixo na cara, nas minhas coisas, deixo meu cheiro, meu sorriso, meu jeito desajeitado, meus gestos e minhas guimbas de cigarro. Deixo tudo isso, e acaba parecendo que fiz questão de largar a vergonha escondida no armário. Mas eu juro que não foi proposital. E não foi. Proposital mesmo é o tempo que estou deixando ela por lá. Porque com a vergonha na cara fica difícil lidar com essa falta de controle que resolveu me tomar. Dá um pouco de medo. Não por me faltar controle. Mas por tê-lo perdido. Se é que um dia eu tive algum controle sobre isso. Acho mesmo que não. Afinal, eu não cheguei penteada, bonitinha, muito menos quieta. Não cruzei as pernas,não pensei no que falar, não alisei o cabelo e minha completa falta de jeito com tudo e meu cair pela rua sujando os joelhos estavam longe de serem charmosos.

Mas quer saber?! Nunca dei muita importância pra essas coisas. Mesmo que me falassem pra usar mais o racional. Racional porra nenhuma. Racional demais é pra quem tem espaço oco por dentro. E dentro de mim, eu guardo uma enorme percussão desenfreada, tocando um samba eterno, um barulho profundo, que não se cala. Que não me cala. Um samba enredo completamente irracional que te diz venha e eu te prometo amor eterno por toda essa noite, além de pés quentes e um chá pra melhorar a tosse. Venha, descasque seu rosário e questione minha moral, mas depois se afunda nesse edredom comigo pra que ninguém mais veja que no fundo você bem que me adora e que eu sou louca. Pra que ninguém mais veja que você bem que me adora (porque) eu sou louca. Um samba enredo irracional. Que de tão louco até falha na malícia. Mas e daí?! Viver é duro, mas no fundo, é uma delícia.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O que escrevo

Não é tristeza querido, e talvez nem felicidade.
É todo e qualquer sentimento que me transborde em arte
Sacramentado em letras catadas como se fossem pedras
E em palavras lançadas como quem atira copos
Por entre as dobras que mapeiam nossos corpos
Porque enquanto vivo, eu penso
Mas quando escrevo, apenas sinto
Me sinto transbordar em pistas
Em linhas
Em farelos de João e Maria
Deixo que a vida vá além dos meus braços
Além dos fatos de fato e daqueles criados
Como auto-ficção
Não é tristeza querido, nem angústia ou alegria
É a força criativa que me traça, me compõe
E que eu não posso mudar
Assim, quem quiser que a compre
Ou esqueça meu nome
E se vá

sábado, 13 de março de 2010

By heart

Pele clara, cabelos negros...
Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha...
Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha, voz quente...
Ela olha. Ele está distraído e não repara. Mas na ânsia de decorá-lo, ela olha. Observa cada detalhe. E tenta sabê-lo de cor: Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha, voz quente... E um jeito de andar peculiar. Os olhos até parecem falar, mostrar o que tem dentro! Acontece que ele a protege de suas manhãs, de suas manhas, de sua arte, de sua vida. Mantém as coisas assim, sempre na beira, na superfície, só até onde os olhos alcançam. O que tem dentro, parece não ser pro seu bico. Por isso todas as vezes que o vê, ela se espanta. Nunca o reconhece por completo. E mesmo assim ele lhe parece sempre melhor do que na ultima vez que o viu. Se não lhe é permitido entender, decora-o então.
Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha, voz quente...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Aniversário!

"Você já reparou que ninguém deseja calma a ninguém, na época de desejar coisas? Deseja-se prosperidade, paz, amor, isso e aquilo ('tudo de bom pra você'), mas todos se esquecem de desejar calma para saborear esse tudo de bom, se por milagre ele acontecer, e principalmente o nada de bom, que às vezes acontece em lugar dele." [Carlos Drumond de Andrade - Os Dias Lindos, p.120]

21 anos...E eu enchi páginas em branco com minhas letras gordas, minhas linhas tortas, minhas frases soltas e ainda fiz questão de colocar minhas memórias em negrito. Escrevi dezenas de primeiros capítulos e não terminei nada de concreto. Mas continuei a escrever. Porque sempre funcionei em textos, mesmo quando me calei, quando perdi as palavras ou quando elas se perderam. Se é que palavras se perdem. Acho mesmo é que se vão por livre e espontânea vontade.

21 anos...
E eu quis todas as coisas. E esperneei por cada uma delas. Quis estojos abarrotados de canetas coloridas, que o Peter Pan fosse de verdade, que as coisas boas durassem pra sempre e que os amores fossem iguais aos do cinema. Mas só fui mesmo saber do amor quando ele já dividia comigo minha cama. Logo em seguida descobri uma saudade absurda e quando não agüentei mais, quis liberdade do apego, das expectativas e das ilusões. E fiquei assim até o coração sentir tanta falta que deixou transparecer, no espaço entre as frases feitas das noites de festas, que tudo que ele queria era colo outra vez.

21 anos...
E a idade nova trás a ânsia das coisas que ainda não vivi. E também a nostalgia das coisas que já fiz. Viajei, conheci gente nova, andei em baixo de chuva, tomei sorvete direto do pote, dancei como louca, cantei pra espantar demônios, passei no vestibular, larguei o Direito, virei professora e sonhei acordada. Fiz também muita coisa errada. Não soube esperar, perdi a cabeça, chorei fora de hora, falei mais do que devia, esqueci a lógica, ignorei meus sentidos, não vi os sinais de aviso, caí, sangrei e morri por amor. Mas fui lá e fiz! E é isso que importa.

21 anos...E eu não gosto que estranhos me toquem, mas gosto de abraçar os amigos, ganhar beijo nos olhos e andar de mãos dadas. Perdi o medo do escuro, mas o silencio ainda me assusta. Não tenho prática em decifrá-lo e é duro não sentir certeza - por mais que eu goste dos benefícios da dúvida. Desisti de acertar, de provar que estou certa, de me justificar - para mim mesma ou para os outros, e até de ter medo. Mas parei de escrever um livro pelo meio quando achei que pudesse ser processada por alguém próximo.

21 anos...
E olho pra trás e não me vejo, olho pra frente e ainda não cheguei lá. Sinto medo e esperança ao mesmo tempo. As contas começam a entrar por debaixo da minha porta e meus valores e meu caráter a serem cotidianamente julgados - afinal, não existe mais a desculpa da inocência. Mas ainda me é permitido sonhar. Então, mesmo em meio a tudo isso, eu tento. Tento abrir mão do apego à dependência e aprender a ficar mais sozinha. Tento ser melhor, mais justa e mais feliz. Se ainda não consegui, continuo tentando. Um dia eu acerto.

21 anos...
E tudo isso me faz sentir que estou começando a adquirir uma vantagem injusta sobre a menina que eu era.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"Na realidade, não seria isso o Éden, meu caro senhor: a vida bem engrenada?" [Camus]

Felicidade que transborda e me escorre pelos poros. Imensa mas mansa. Tão calma que me apresenta uma espécie de paz desconhecida. Paz suprema. Somada com a certeza de que tudo ta bem. O emprego vai bem, as férias prolongadas da faculdade vão bem, a cabeça e o coração também. Nada de brigas, nem mesmo com a balança - o que já garante uma satisfação bastante rara. No fundo no fundo, não é tão difícil assim esquecer a ansiedade e fazer as pazes com o que é calmo. Talvez um dia eu aprenda a viver sempre assim. Em harmonia com o mundo e com o meu mundo. Como quem encontra o ritmo certo para a batida do coração e controla o fluxo do ar que entra e que sai. Talvez, um dia, eu aprenda. E descubra o silencio como forma plena de comunicação. E comece a aceitar apenas a parte que me cabe. Por enquanto me transbordo de felicidade. Imensa, mansa e que me escorre pelos poros.

"Gozava minha própria natureza e todos nós sabemos que é aí que reside a felicidade, embora para nos tranquilizarmos mutuamente, demonstremos, por vezes, condenar estes prazeres sob o nome de egoísmo." [Albert Camus - A Queda, p.17]

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Então é Natal...

A última semana de Dezembro sempre me tirou o sono. Não por esperar ansiosa a chegada do Papai Noel. Mas porque todo o frenesi, acompanhado de caixinhas de presentes e luzes espalhadas pela cidade, me causa claustrofobia e esfrega na minha cara o inevitável: A chegada do Natal. Papai Noel de shopping, jingles terríveis em várias versões e pinheiros que de repente se multiplicam mesmo estando em uma cidade tão quente como a minha. Surgem para aumentar a ânsia pelo meu aniversário que chegará em breve e para me lembrar que tenho que preparar o estômago pra engolir o “excêntrico jantar de natal” que me espera.

Deixei de gostar das comemorações natalinas desde que adquirir maturidade suficiente pra entender que o Natal serve apenas para juntar parentes distantes. Por pura obrigação e não por ser uma época de alegria e confraternização. Primos de não-sei-que-grau te pentelhando e tias-avós fazendo perguntas inúteis sobre como vai a faculdade e o emprego. Sem contar a mais clássica de todas: “Está namorando?”. Que inferno! Se esse interesse pela minha vida fosse de fato verdadeiro, porque não me ligaram durante os 360 dias que tiveram pra saber como andam as coisas ao invés de acumular perguntas pra acabar com minha paciência durante a ceia de natal?

A gente cresce, aprende que papai Noel não existe, mas mesmo assim continua a celebrar sabe-se lá o que. O nascimento de Jesus já não cola mais. Afinal, no meio de bebidas, comidas, amigos ocultos e tios gordos fantasiados, quem se lembra de mencionar o nome de Jesus?! Talvez a prima adolescente faça algum comentário sobre o namoro da Madonna. Mas nada, além disso.

Acontece, que as caixinhas de presente continuam a se multiplicar e as músicas de Natal me perseguem até em sonho. Mas aos 20 anos, já faço parte da classe dos adultos-que-não-ganham-presente-porque-entendem-que-presente-é-só-pras-crianças. Às vezes até acontece de algum parente distante (tão distante que eu nem sei qual o nosso grau de parentesco) chegar com um presente nas mãos porque “não é legal chegar à casa dos outros de mãos vazias”. E pra não fazer feio, me presenteia com um porta-retrato barato ou uma agenda para o próximo ano. (Eba!)

Mas no meio disso tudo, sinto a nostalgia do ano que está acabando e conto os dias para um outro que já está chegando. 2009 arrancou minha imaturidade a fórceps, me escolheu novos amigos, me deu novos vícios, me fez fazer as pazes com o tempo e jogar fora papéis, pessoas e velhos hábitos. Talvez no fundo pouca coisa tenha mudado. Afinal, eu sou o resultado de todas as minhas memórias, e de toda a esperança do que ainda está por vir. Mas o pouco que mudou, mudou pra vida inteira, e me despeço dos 20 anos uma pessoa um pouco melhor. Então tá tudo certo. E passado o desespero, desejo a todos um Natal, no mínimo, farto de comidas tradicionais natalinas. Porque elas sim valem a pena...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Quem diria...

Celine: Memories are wonderful things, if you don’t have to deal with the past.
[Before Sunset - filme]

Quem diria. A gente se encontrar para um chope alguns anos luz depois. E tudo parecer igual apesar de estar tudo diferente. A calma dele fora do comum e a minha hiperatividade constante. O cheiro dele fora do comum e a minha bagunça gritante, e ele continua lindo. Uma beleza que fere os olhos. Mas que desta vez não me desconsertou e foi fácil admira-la sem qualquer constrangimento. Porque pela primeira vez em anos pude ver de perto, bem perto, que os opostos se atraem mais jamais se misturam. E o que era meio virou nada. As meias decisões, a meia vida em comum , os acontecimentos pelo meio, o meio de tudo - o medo de tudo - e nós que ficamos pelo meio, de repente, ali, numa mesa de bar virou nada. O que pra minha sorte – e pro alívio dele - finalmente aconteceu.
Quem diria. 4 anos. Às vezes parece que foi ontem, às vezes que foi há mil anos. E a gente de repente se encontrar para um chope. Depois de muita coisa, de muito tempo e de muitas pessoas. E poder ver que algumas coisas permanecem iguais, outras um tanto diferente. Fazia uma noite linda de enjoar. E velhos amigos estavam reunidos e arregalando os mesmos sorrisos que há tanto tempo eu não via. Me fazendo perceber que no passado a única coisa fora do lugar era a gente mesmo. Agora a única marca da presença dele na minha vida são as fotos escondidas e as lembranças. E lembranças são apenas coisas que já foram e não que continuam sendo. Sabendo disso fica fácil lidar com elas. Mais ainda gostar delas. Porque não é pecado nenhum apreciar as lembranças de uma vida que foi, mesmo que não exista mais forma de voltar a sê-la. Uma lembrança sem dor, pelo contrário, uma lembrança boa e feliz. Porque agora eu sei que aquela beleza irá ferir eternamente meus olhos, mas nunca mais meu coração.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

E você que se vire com isso...

“Cada voto que fiz ergueu-se em grito contra o meu próprio dar demasiado.”
[Vinicius de Moraes]


Olhar pra frente e ver o mundo indo e decidir ir também. Cada um tem seu problema, isto é certo. Mas problema maior é ficar parado. Estacionado em uma situação que não te leva mais a lugar nenhum. Que não lhe permite tirar mais nada de proveito. E ter a certeza disso nem sempre é tarefa fácil. É preciso maturidade pra seguir em frente e acompanhar o fluxo do mundo que bem ou mal, vai. Uma maturidade que nos força a nos afastar de situações de risco (principalmente pro coração) mesmo quando um lado nosso bate o pé no chão – como criança- e repete incansavelmente que quer. E ainda temos que lutar contra a vontade de passar por cima da regra de ouro e ir com tudo pra cima sem medir conseqüências. É preciso caminhar pra dentro e reconhecer-se, pra conseguir caminhar pra fora sem medo de cair, ou mais ainda, pra ter inteligência pra prever o tombo. Eu não previ meu tombo, mas também não tive medo de cair. E agora que me preparo pra levantar sinto que me minha cabeça não sabe nada, mas o meu corpo sabe exatamente onde dói. E travo uma luta interna com essa maturidade que julgo ter. Porque me questiono quando que ficar sozinha em casa no sábado virou um programa agradável. E mais ainda quando o agradável, pra mim, ganhou peso menor do que o necessário. Acho que foi quando tudo começou a virar um cenário patético demais para que não fosse mudado. Tudo tão demasiadamente ridículo que senti uma saudade imensa da época em que curava meus problemas com insônia, madrugadas regadas a litros de café, jazz e textos no blog. E por isso, hoje, escrevi versos, parágrafos e transformei tudo em texto. Recordei frases feitas, olhares perdidos, momentos de silêncio e vi que durante um tempo, deixei um lado valioso meu de lado. Revirei livros já lidos, recomecei aqueles que já comecei uma dezena de vezes mas nunca terminei - como quem tentasse resgatar o que ficou. E sem conseguir mais me conter, escrevi sobre você. Porque é só quando te transformo em letra que te sinto de verdade. Não como ser presente, mas como lembrança viva de tudo o que não fomos. Acontece, que o mundo vai e eu preciso ir. Mesmo que o lado que bate o pé como criança querendo ficar esteja me deixando louca e transformando numa tarefa árdua caminhar pra frente sem olhar pra ver o que ficou pra trás. Mas o mundo vai e eu também preciso ir, querido. E você que se vire com isso...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Leite com achocolatado.


Acordou com o corpo suado, levantou cambaleando, foi até o banheiro, lavou o rosto e depois chegou até a janela pra conferir como estavam as coisas la fora num dia quente de sol senegalês. “O mundo ta pegando fogo” – pensou ele. O celular estava estático em cima da mesa. Ele sabia que ela não tinha ligado, mas ainda assim preferiu conferir e ver se não tinha nenhuma ligação perdida. Nada. Claro, ela não é desse tipo de mulher, que liga pra pedir palavras de carinho ou pra perguntar como ele está. Não ia ligar assim à toa. Questionou o relacionamento que tinham. Ela é auto-suficiente, bem resolvida, mora sozinha e tem um cachorro que a faz companhia. O que deixa nele uma profunda sensação de ser só mais uma coisa pra ocupar o tempo dela. Nada de especial. Como um brinquedo ou uma forma de distração da vida corrida. Resolveu tomar uma xícara de café pra ver se acostumava com o gosto. Ela só toma café e estava cansado de vê-la tomando xícaras ao acordar enquanto ele se mantinha no leite com achocolatado. Procurou nos armários e encontrou um vidro de café instantâneo que ela comprara pra deixar na casa dele pra quando fosse dormir por la. No rótulo estava escrito Extra Forte, o que não o animou muito. Mas estava decidido, seria café quente numa manhã quente, mesmo ele não entendendo a lógica disso. Com o café já pronto nas mãos, caminhou até a sala e no instante em que tentou dar o primeiro gole reparou que a luz da secretária eletrônica piscava. Apertou o botão para escutar o recado e surpreendeu-se ao ouvir a voz dela saindo do aparelho. Sentado no sofá com a xícara de café na mão, ele escutava pela secretária eletrônica o recado que ela havia deixado na noite anterior. Se disse preocupada porque fazia uma noite quente e queria saber como ele estava lidando com todo calor. Sabia como noites quentes o incomodavam. Às vezes esses ataques de proteção surgiam e se alteravam com um profundo descaso da parte dela que era capaz de ficar dias inteiros sem ligar e depois dizia que essas inconstâncias emocionais eram a maior prova de amor que ela podia dar. Ele não se mexeu. Permaneceu no sofá, fazendo careta ao tentar tomar seu café e ouvindo a voz dela, abafada pelo barulho de trânsito, dizendo que estava preocupada. Aquilo lhe deixara confuso. Tinha calculado a noite inteira enquanto rolava na cama sem dormir em função do calor, o momento ideal para deixá-la. Estava cansado com a inconstância, a independência e a personalidade forte dela. Tudo isso o deixava inseguro demais. Não dava pra acordar com uma mulher que bebe café instantâneo Extra Forte pela manhã enquanto ele bebe leite com achocolatado. Essa insegurança faz o amor acabar. Inevitavelmente. Mesmo que pra ela insegurança não fosse um motivo plausível, pra ele era motivo suficiente. Tentou programar o que dizer. Pensou na forma com que o cabelo dela cai sobre o olho escondendo metade do rosto como se assim protegesse dele metade dela. E em como ela gosta de dormir com cobertores diferentes para que nem um deles destape o outro durante a noite. E como gosta de passar a xícara de café perto do nariz antes de bebe-lo pra poder sentir seu aroma. E lembrou de cada pequeno detalhe que a fazia especial pra ele. E percebeu que estas pequenas coisas, as pequenas manias dela estavam tão impregnadas nele que ele precisaria de um tempo longe, um tempo sozinho pra poder se livrar do vicio. Fazer uma desintoxicação. Para isso era preciso primeiro conseguir deixá-la. Ele não a entendia direito. Enquanto pessoas normais viram a cara para possíveis tentações, ou para alguma coisa que esteja do outro lado da rua, ela não, ela é do tipo de mulher que atravessa no meio dos carros pra ver o que tem do outro lado. Neste instante começou a cair uma chuva dessas de verão, que sempre caem depois do calor. A mensagem na secretária repetia pela terceira vez, ele permanecia no sofá e a xícara de café permanecia cheia. Sentiu o cheiro do café e viu que enquanto vivesse lembraria dela ao sentir aquele aroma. Levantou num pulo, desligou a secretária e pegou o telefone num desses momentos em que as coisas fazem sentindo. Largou a xícara de café, ligou pra ela e disse que estava indo vê-la. Antes de sair, tomou um copo de leite com achocolatado bem gelado e saiu, pensando que se um dia ela quisesse ver o que tivesse além, o que tivesse depois dos carros, que fosse ele esperando por ela do outro lado da rua.

domingo, 8 de novembro de 2009

Por hora, bastaria.


Ir embora em silêncio, sem dizer adeus e em passos lentos (quase flutuando). Largar casa, emprego e tudo que foi e não é mais. Dar o fora daqui, dessa cidade, dessas pessoas e ir viver de amor em uma cabana. Viver no estado mais bruto e primitivo de felicidade. Deitar numa rede e observar as estrelas e a lua cheia no céu, e contemplar a simplicidade da vida. Onde qualquer problema se resolva só de eu me encaixar embaixo dos seus braços.Acordar com a luz do sol. Acreditar em cristais, astrologia e no sexo dos anjos. E ter uma fonte perto do jardim. Um cachorro solto no quintal e passarinhos soltos pelo céu. Conhecer a vida crua. Repleta de paz. Tudo ridiculamente simples. Nomear as pintas do seu corpo pra me distrair. Ouvindo jazz e bossa nova. Viver só com o necessario, sem exageros e sem vicios. A vida seria besta. Mas por hora, bastaria.

sábado, 31 de outubro de 2009

Cargo dificil de aguentar!

Não sou sutil, não é meu forte. A TPM chega e eu choro descaradamente na frente de quem for, e depois morro de vergonha. Ser mulher é cargo dificil de aguentar. E entre doces e mais doces, sempre uma dose extra de dramas e clichês. E é nessa época do mês que eu perco o poder sobre as palavras que escrevo. E tento botar pra fora aquilo que não consigo gritar. E fico louca e em seguida apática. Escrevo textos e paro no meio. Queria escrever pra falar sobre perguntas que ficam sem respostas e como é dificil conviver com elas. Mas a TPM me consome e não me deixa escrever o que quero, só o que sinto. Sinto tudo e não sinto nada. Sina de que tem o coração trancado. Estou trancada. Pra dentro e pra fora, ninguém entra mas ao mesmo tempo ninguém sai! Mas deveria sair. Talvez se me dessem as respostas das perguntas que ficaram no ar. Talvez se eu parasse de responder as perguntas que nunca me fizeram. Mas o que posso fazer?! Está tudo escrito na minha cara pra quem quiser ler. E ai eu começo a achar que eu não tenho talento pra coisa e ameaço parar de escrever. Depois lembro que chorei e sorri entre palavras e papéis. Só que hoje não controlo mais as palavras. Porque meu coração está trancado, niguém entra e ninguém sai. E eu não sou sutil, tenho tudo estampado na minha testa. Tenho estampado no meu corpo e debaixo das minhas dobras coisas que eu sei que você lê e ignora. E o dia ta cinzento e essa chuva aumenta minha vontade de esmagar o edredom, não pensar em nada e comer uma caixa de bis laka. A TPM vem e tira tudo do lugar, revira minha vida, minha calma, meu orgulho, meus textos e minha pose de mulher equilibrada. E entre doces e mais doces, uma dose extra de dramas e clichês. Ser mulher é cargo dificil de aguentar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rotina

2 horas da manhã. É fácil olhar pra mim e falar que eu sou desequilibrada, mas é ele que só funciona no estopim, quando alguém grita no ouvido dele. Senão ele ficaria o dia inteiro com aquele ar de despreocupado de quem deixa tudo pra depois! Eu só queria o mínimo. Gosto das coisas pequenas. Das pequenas demonstrações de afeto. Gestos mínimos de carinho. Só queria que ele reparasse em minhas roupas, lesse o meu blog ou ligasse no meio da tarde pra perguntar como estava indo meu dia. Essas coisas, simples e que não custam dinheiro. Mas não adianta. Nem quando eu coloco meus vestidos primaveris cheios de cores, quando dou uma caprichada na maquiagem, ou quando uso uma roupa mais decotada pra ver se chama a atenção dele, ele repara em mim. Não me elogia. Ao invés disso, ele chega e reclama que eu estou fedendo a cigarro, ou que estou falando demais. Eu faço tanto por ele. Sempre odiei dormir acompanhada, com gente roubando meu espaço na cama e meus lençóis. E ele mexe a noite inteira. Atrapalha meu sono. Mas nunca falei, nunca reclamei com ele pra que ele não se sentisse mal ou culpado. Eu gosto de futebol e me esforço pra entender tudo sobre o time dele só pra poder conversar sobre coisas que ele gosta. Sou extrovertida e desencanada. Faço amizade fácil. Os amigos dele me adoram. E ele percebe? Não! E agora, quando eu resolvo falar que isso me incomoda, dá nisso: briga. E ainda joga na minha cara que eu brigo por coisa pequena. SIM, por coisa pequena! Estou brigando porque quero as coisas pequenas! Ele liga pelo menos 3 vezes por dia pra mãe dele, porque não pode me ligar pelo menos 1 vez e saber como está indo meu dia ou as coisas no trabalho? E agora ele ta lá dormindo no outro quarto só pra me torturar, só pra jogar na minha cara o nada que restou pra mim. Ele não merece meu jeito, meu gosto, meu tato, meu amor, minha falação desesperada, meu espernear pela casa, meus bicos e nem meus passos barulhentos pelo chão. Amanhã eu vou embora. Vou passar uns dias na casa da minha mãe. Vou fazer ele sentir falta. Vou fazer ele me ver indo embora, de óculos escuros e andando na contramão. Vou me afastar pra ver se assim ele sente falta do meu salto batendo no chão da sala, da minha falação e das minhas manias. Melhor dormir porque a cama estática está me incomodando e amanhã será um longo dia.

4 e meia da manhã. Ela tem esse jeito de só funcionar em alta velocidade e reclama constantemente que precisa de um pequeno caos interno pra poder conseguir escrever. E escreve compulsivamente. Escreve no blog e tenta escrever um livro. Eu a encorajo sobre o livro embora nunca leia o blog dela. Tenho medo do que ela escreve lá. Reclama que não dou a ela o suficiente. Mas eu não digo que ela não precisa daqueles vestidos floridos cheio de cores pra chamar atenção, pra que ela não ache que estou falando mal das roupas dela. Não reclamo quando ela exagera na maquiagem. E nem quando abusa daqueles decotes. O que me deixa louco de ciúmes e raiva, mas não falo. Me esforço pra tentar convencê-la a parar de fumar porque me preocupo com a saúde dela. Na hora de dormir, reclama do mau tempo e do ar condicionado e pede pra desligar o ar e abrir a janela, eu deixo. Depois reclama do barulho do trânsito e fecha a janela. Transforma o quarto numa estufa. E o calor insuportável atrapalha meu sono, me faz rolar por horas na cama até conseguir dormir. Não falo que é estranho ouvi-la falar sobre futebol e nem rio das besteiras que ela fala quando é este o assunto. Aceito seu jeito expansivo e a forma como fala alto e gesticula e me faz sentir invisível quando estou com meus amigos, porque ela fala demais e arranca gargalhadas deles, sem deixar espaço para mais ninguém. E ela diz que não faço o suficiente! Diz que gosta das coisas pequenas. Mas eu não consigo entender o que essa mulher pode querer mais. Tá ai, agora, dormindo. E eu aqui parado na porta do quarto. Tentei ir embora. Porque ela não merece que eu atrapalhe sua vida e suas coisas e nem minha quietude voluntária, nem meu jeito próprio de respeitar seu barulhento andar pela casa. Mas a porta estava aberta e do corredor pude vê-la dormindo, com a franja jogada no rosto e essa calma absurda que só aparece quando ela dorme. Não consigo parar de olhá-la. E é nesse momento de paz onde eu posso ficar em silêncio que ela fica mais bonita. Ela diz que ama as coisas simples da vida. Porra nenhuma! Está sempre querendo um pouco mais, sempre falta alguma coisa. A verdade é que quem gosta das pequenas coisas sou eu, que só quero ficar aqui olhando para ela dormindo e imaginando o que dizer amanhã quando ela vier com alguma historia maluca dizendo que está indo embora pra outro país ou voltando pra casa da mãe.