E como não me resta mais criatividade pra escrever, vou deixar um pouco de Caio pra vocês.. afinal, é sempre bom um pouco mais de Caio!!! Aliás, todos deveriam amar Caio...
"Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora. Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante — seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente os seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou. "
["Do outro lado da tarde" em O Ovo Apunhalado - Caio Fernando Abreu]
FELIZ 2010!!!!!

A última semana de Dezembro sempre me tirou o sono. Não por esperar ansiosa a chegada do Papai Noel. Mas porque todo o frenesi, acompanhado de caixinhas de presentes e luzes espalhadas pela cidade, me causa claustrofobia e esfrega na minha cara o inevitável: A chegada do Natal. Papai Noel de shopping, jingles terríveis em várias versões e pinheiros que de repente se multiplicam mesmo estando em uma cidade tão quente como a minha. Surgem para aumentar a ânsia pelo meu aniversário que chegará em breve e para me lembrar que tenho que preparar o estômago pra engolir o “
Quando acordei, vi que o celular estava estático do meu lado. Nenhuma ligação perdida. Senti o peito apertado e uma vontadezinha de chorar. Foi o primeiro sinal de que a TPM estava de volta. Em dias assim, preciso prestar muita atenção no que faço, falo, vejo ou escuto. Porque tudo, de repente, começa a ter um poder descontrolado sobre mim. E mesmo sabendo disso, escolhi acordar e escutar Billie Holiday pra me maltratar logo pela manhã. Pra fazer os olhos molharem e os cabelos dos braços arrepiarem. Este foi o segundo sinal do dia. Na certa será uma TPM regada a chocolate, músicas nostálgicas, meia dúzia de comédias românticas ou qualquer outra coisa que quebre a pose de durona e me faça refletir sobre perguntas sem a mínima possibilidade de resposta. Melhor assim. Chorinho recatado, romantismo barato e emoção exagerada. Com tanto problema acontecendo, eu não daria conta de passar por uma TPM “exorcista” que me fizesse vomitar verde, girar a cabeça e gritar que vou comer seu fígado com ervilhas por não ter ligado...

Quem diria. A gente se encontrar para um chope alguns anos luz depois. E tudo parecer igual apesar de estar tudo diferente. A calma dele fora do comum e a minha hiperatividade constante. O cheiro dele fora do comum e a minha bagunça gritante, e ele continua lindo. Uma beleza que fere os olhos. Mas que desta vez não me desconsertou e foi fácil admira-la sem qualquer constrangimento. Porque pela primeira vez em anos pude ver de perto, bem perto, que os opostos se atraem mais jamais se misturam. E o que era meio virou nada. As meias decisões, a meia vida em comum , os acontecimentos pelo meio, o meio de tudo - o medo de tudo - e nós que ficamos pelo meio, de repente, ali, numa mesa de bar virou nada. O que pra minha sorte – e pro alívio dele - finalmente aconteceu.
