
Se te quero... Foges.
Se te ignoro... Vens.
21 anos...E eu enchi páginas em branco com minhas letras gordas, minhas linhas tortas, minhas frases soltas e ainda fiz questão de colocar minhas memórias em negrito. Escrevi dezenas de primeiros capítulos e não terminei nada de concreto. Mas continuei a escrever. Porque sempre funcionei em textos, mesmo quando me calei, quando perdi as palavras ou quando elas se perderam. Se é que palavras se perdem. Acho mesmo é que se vão por livre e espontânea vontade.
Ontem fui na casa dos meus avós comemorar com eles o meu aniversário que está próximo. Minha avó, agitada e ansiosa, me deu seu presente logo quando cheguei. Já meu avô, velhinho e extremamente calmo, não me deu nada. Ao invés disso, sentou do meu lado e começou a conversar. Pensei em como meus avós são pessoas diferentes e perguntei a ele como eles conseguiam manter um casamento há tantos anos. Me olhou meio de lado, sem entender direito o motivo da pergunta, e contou que certa vez foi ao supermercado e viu um pêssego “vistoso”, grande e que aparentava extremamente suculento. Por ser sua fruta preferida, ficou ansioso pra comê-la. Procurou na pilha outro tão bonito quanto aquele e não encontrou. Comprou então o pêssego suculento e um outro que além de menor, não tinha o mesmo aspecto do primeiro. Em casa, lavou a fruta e quando já estava com a faca na mão, desistiu. Trocou pelo pêssego menor, deixando o outro na geladeira para minha avó, mesmo sabendo que ela nem ligava tanto assim pra pêssegos.
* Réplica das assinutaras do meu avô e da minha avó.
Felicidade que transborda e me escorre pelos poros. Imensa mas mansa. Tão calma que me apresenta uma espécie de paz desconhecida. Paz suprema. Somada com a certeza de que tudo ta bem. O emprego vai bem, as férias prolongadas da faculdade vão bem, a cabeça e o coração também. Nada de brigas, nem mesmo com a balança - o que já garante uma satisfação bastante rara. No fundo no fundo, não é tão difícil assim esquecer a ansiedade e fazer as pazes com o que é calmo. Talvez um dia eu aprenda a viver sempre assim. Em harmonia com o mundo e com o meu mundo. Como quem encontra o ritmo certo para a batida do coração e controla o fluxo do ar que entra e que sai. Talvez, um dia, eu aprenda. E descubra o silencio como forma plena de comunicação. E comece a aceitar apenas a parte que me cabe. Por enquanto me transbordo de felicidade. Imensa, mansa e que me escorre pelos poros.
Até o caminho de casa, o telefone tocou três vezes. Não atendi. Tomada por um sentimento de tristeza e confusão, entrei em casa e joguei o celular no fundo do armário da sala na tentativa de afastar da cabeça os pensamentos que aqueles telefonemas me traziam. Eu sabia que já não havia mais jeito. Sabia que não deveria seguir com uma amizade que me sugasse tanta energia. E sabia exatamente onde doía por não poder mais arrumar desculpas que encobrissem essa certeza. Eu havia arrumado formas para camuflar situações incomodas vinte, trinta, quarenta vezes. E um dia, subitamente, deixei de acreditar que valia a pena. A verdade estava clara demais para que eu a negasse. Não conseguia ver mais nada naquela pessoa além de uma insegurança desmedida que se transformava sempre em tentativas desesperadas de que o meio ao seu redor notasse a sua existência, mesmo que fosse vista negativamente ou que isso trouxesse imensa dor ao seu ego. E foi exatamente em função disso que nossas conversas se tornaram cada vez menos freqüentes. As palavras já estavam gastas. E certas coisas não mereciam mais ser ditas porque jamais seriam entendidas.