A última semana de Dezembro sempre me tirou o sono. Não por esperar ansiosa a chegada do Papai Noel. Mas porque todo o frenesi, acompanhado de caixinhas de presentes e luzes espalhadas pela cidade, me causa claustrofobia e esfrega na minha cara o inevitável: A chegada do Natal. Papai Noel de shopping, jingles terríveis em várias versões e pinheiros que de repente se multiplicam mesmo estando em uma cidade tão quente como a minha. Surgem para aumentar a ânsia pelo meu aniversário que chegará em breve e para me lembrar que tenho que preparar o estômago pra engolir o “excêntrico jantar de natal” que me espera.Deixei de gostar das comemorações natalinas desde que adquirir maturidade suficiente pra entender que o Natal serve apenas para juntar parentes distantes. Por pura obrigação e não por ser uma época de alegria e confraternização. Primos de não-sei-que-grau te pentelhando e tias-avós fazendo perguntas inúteis sobre como vai a faculdade e o emprego. Sem contar a mais clássica de todas: “Está namorando?”. Que inferno! Se esse interesse pela minha vida fosse de fato verdadeiro, porque não me ligaram durante os 360 dias que tiveram pra saber como andam as coisas ao invés de acumular perguntas pra acabar com minha paciência durante a ceia de natal?
A gente cresce, aprende que papai Noel não existe, mas mesmo assim continua a celebrar sabe-se lá o que. O nascimento de Jesus já não cola mais. Afinal, no meio de bebidas, comidas, amigos ocultos e tios gordos fantasiados, quem se lembra de mencionar o nome de Jesus?! Talvez a prima adolescente faça algum comentário sobre o namoro da Madonna. Mas nada, além disso.
Acontece, que as caixinhas de presente continuam a se multiplicar e as músicas de Natal me perseguem até em sonho. Mas aos 20 anos, já faço parte da classe dos adultos-que-não-ganham-presente-porque-entendem-que-presente-é-só-pras-crianças. Às vezes até acontece de algum parente distante (tão distante que eu nem sei qual o nosso grau de parentesco) chegar com um presente nas mãos porque “não é legal chegar à casa dos outros de mãos vazias”. E pra não fazer feio, me presenteia com um porta-retrato barato ou uma agenda para o próximo ano. (Eba!)
Mas no meio disso tudo, sinto a nostalgia do ano que está acabando e conto os dias para um outro que já está chegando. 2009 arrancou minha imaturidade a fórceps, me escolheu novos amigos, me deu novos vícios, me fez fazer as pazes com o tempo e jogar fora papéis, pessoas e velhos hábitos. Talvez no fundo pouca coisa tenha mudado. Afinal, eu sou o resultado de todas as minhas memórias, e de toda a esperança do que ainda está por vir. Mas o pouco que mudou, mudou pra vida inteira, e me despeço dos 20 anos uma pessoa um pouco melhor. Então tá tudo certo. E passado o desespero, desejo a todos um Natal, no mínimo, farto de comidas tradicionais natalinas. Porque elas sim valem a pena...

Quando acordei, vi que o celular estava estático do meu lado. Nenhuma ligação perdida. Senti o peito apertado e uma vontadezinha de chorar. Foi o primeiro sinal de que a TPM estava de volta. Em dias assim, preciso prestar muita atenção no que faço, falo, vejo ou escuto. Porque tudo, de repente, começa a ter um poder descontrolado sobre mim. E mesmo sabendo disso, escolhi acordar e escutar Billie Holiday pra me maltratar logo pela manhã. Pra fazer os olhos molharem e os cabelos dos braços arrepiarem. Este foi o segundo sinal do dia. Na certa será uma TPM regada a chocolate, músicas nostálgicas, meia dúzia de comédias românticas ou qualquer outra coisa que quebre a pose de durona e me faça refletir sobre perguntas sem a mínima possibilidade de resposta. Melhor assim. Chorinho recatado, romantismo barato e emoção exagerada. Com tanto problema acontecendo, eu não daria conta de passar por uma TPM “exorcista” que me fizesse vomitar verde, girar a cabeça e gritar que vou comer seu fígado com ervilhas por não ter ligado...

Quem diria. A gente se encontrar para um chope alguns anos luz depois. E tudo parecer igual apesar de estar tudo diferente. A calma dele fora do comum e a minha hiperatividade constante. O cheiro dele fora do comum e a minha bagunça gritante, e ele continua lindo. Uma beleza que fere os olhos. Mas que desta vez não me desconsertou e foi fácil admira-la sem qualquer constrangimento. Porque pela primeira vez em anos pude ver de perto, bem perto, que os opostos se atraem mais jamais se misturam. E o que era meio virou nada. As meias decisões, a meia vida em comum , os acontecimentos pelo meio, o meio de tudo - o medo de tudo - e nós que ficamos pelo meio, de repente, ali, numa mesa de bar virou nada. O que pra minha sorte – e pro alívio dele - finalmente aconteceu.
