Sem televisão no quarto e com todos os meus livros lidos e relidos, os dias parecem começar e terminar sempre com uma dose extra de tédio. E tédio é uma coisa engraçada, que nos deixa sem vontade de fazer absolutamente nada, mas que também não deixa a gente quieto. Talvez seja ssa a maior prova da nossa necessidade de um pequeno caos constante. Da minha, pelo menos. Afinal as coisas estão tranqüilas, aconchegantes, monótonas e corriqueiras. Só que esse punhado de horas mansas tem me parecido algo doce, mas um tanto enjoativo. Confesso, de forma egoísta, que parece me faltar alguma coisa mesmo estando tudo bem. Talvez seja a existência, ainda que tímida, de algum caos interno que me impulsione a “por a pena na mão” e escrever todas as reminiscências que me vierem à mente. Não acho bonito, nem certo admitir essa irrefreável tendência ao caos. Mas tudo cansa. E começo a perceber que é preciso, antes de ser feliz, ter capacidade pra ser feliz. Entender que podemos ser felizes sem precisar expor os dentes, que até as pessoas mais felizes carregam tristezas no bolso e que talvez felicidade plena seja um caso mental patológico e completamente avesso a realidade em que o resto do mundo vive. Então, se está tudo bem, eu sorrio. Mas - repito - me falta alguma coisa, porque está tudo bem e eu só rio.
domingo, 28 de março de 2010
sábado, 13 de março de 2010
By heart
Pele clara, cabelos negros...Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha...
Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha, voz quente...Ela olha. Ele está distraído e não repara. Mas na ânsia de decorá-lo, ela olha. Observa cada detalhe. E tenta sabê-lo de cor: Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha, voz quente... E um jeito de andar peculiar. Os olhos até parecem falar, mostrar o que tem dentro! Acontece que ele a protege de suas manhãs, de suas manhas, de sua arte, de sua vida. Mantém as coisas assim, sempre na beira, na superfície, só até onde os olhos alcançam. O que tem dentro, parece não ser pro seu bico. Por isso todas as vezes que o vê, ela se espanta. Nunca o reconhece por completo. E mesmo assim ele lhe parece sempre melhor do que na ultima vez que o viu. Se não lhe é permitido entender, decora-o então.
Pele clara, cabelos negros, olhos castanhos, boca vermelha, voz quente...
segunda-feira, 8 de março de 2010
A máquina
A gente acha que o futuro é muito longe daqui e esquece que hoje é futuro de ontem e passado de amanhã. E que não importa o que era, mas sim o que se tornou. Se o que se tornou não lhe agrada, mude. Só demorará uma única noite pra que tudo esteja diferente. Afinal, amanhã é o futuro de hoje. E também passado de depois de amanhã. Se mudar hoje o que não gosta e chegar amanhã ainda sem gostar, mude outra vez que o depois de amanhã certamente lhe servirá...
sexta-feira, 5 de março de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Aniversário!
"Você já reparou que ninguém deseja calma a ninguém, na época de desejar coisas? Deseja-se prosperidade, paz, amor, isso e aquilo ('tudo de bom pra você'), mas todos se esquecem de desejar calma para saborear esse tudo de bom, se por milagre ele acontecer, e principalmente o nada de bom, que às vezes acontece em lugar dele." [Carlos Drumond de Andrade - Os Dias Lindos, p.120]
21 anos...E eu enchi páginas em branco com minhas letras gordas, minhas linhas tortas, minhas frases soltas e ainda fiz questão de colocar minhas memórias em negrito. Escrevi dezenas de primeiros capítulos e não terminei nada de concreto. Mas continuei a escrever. Porque sempre funcionei em textos, mesmo quando me calei, quando perdi as palavras ou quando elas se perderam. Se é que palavras se perdem. Acho mesmo é que se vão por livre e espontânea vontade.
21 anos...
E eu quis todas as coisas. E esperneei por cada uma delas. Quis estojos abarrotados de canetas coloridas, que o Peter Pan fosse de verdade, que as coisas boas durassem pra sempre e que os amores fossem iguais aos do cinema. Mas só fui mesmo saber do amor quando ele já dividia comigo minha cama. Logo em seguida descobri uma saudade absurda e quando não agüentei mais, quis liberdade do apego, das expectativas e das ilusões. E fiquei assim até o coração sentir tanta falta que deixou transparecer, no espaço entre as frases feitas das noites de festas, que tudo que ele queria era colo outra vez.
21 anos...
E a idade nova trás a ânsia das coisas que ainda não vivi. E também a nostalgia das coisas que já fiz. Viajei, conheci gente nova, andei em baixo de chuva, tomei sorvete direto do pote, dancei como louca, cantei pra espantar demônios, passei no vestibular, larguei o Direito, virei professora e sonhei acordada. Fiz também muita coisa errada. Não soube esperar, perdi a cabeça, chorei fora de hora, falei mais do que devia, esqueci a lógica, ignorei meus sentidos, não vi os sinais de aviso, caí, sangrei e morri por amor. Mas fui lá e fiz! E é isso que importa.
21 anos...E eu não gosto que estranhos me toquem, mas gosto de abraçar os amigos, ganhar beijo nos olhos e andar de mãos dadas. Perdi o medo do escuro, mas o silencio ainda me assusta. Não tenho prática em decifrá-lo e é duro não sentir certeza - por mais que eu goste dos benefícios da dúvida. Desisti de acertar, de provar que estou certa, de me justificar - para mim mesma ou para os outros, e até de ter medo. Mas parei de escrever um livro pelo meio quando achei que pudesse ser processada por alguém próximo.
21 anos...
E olho pra trás e não me vejo, olho pra frente e ainda não cheguei lá. Sinto medo e esperança ao mesmo tempo. As contas começam a entrar por debaixo da minha porta e meus valores e meu caráter a serem cotidianamente julgados - afinal, não existe mais a desculpa da inocência. Mas ainda me é permitido sonhar. Então, mesmo em meio a tudo isso, eu tento. Tento abrir mão do apego à dependência e aprender a ficar mais sozinha. Tento ser melhor, mais justa e mais feliz. Se ainda não consegui, continuo tentando. Um dia eu acerto.
21 anos...
E tudo isso me faz sentir que estou começando a adquirir uma vantagem injusta sobre a menina que eu era.
21 anos...E eu enchi páginas em branco com minhas letras gordas, minhas linhas tortas, minhas frases soltas e ainda fiz questão de colocar minhas memórias em negrito. Escrevi dezenas de primeiros capítulos e não terminei nada de concreto. Mas continuei a escrever. Porque sempre funcionei em textos, mesmo quando me calei, quando perdi as palavras ou quando elas se perderam. Se é que palavras se perdem. Acho mesmo é que se vão por livre e espontânea vontade.21 anos...
E eu quis todas as coisas. E esperneei por cada uma delas. Quis estojos abarrotados de canetas coloridas, que o Peter Pan fosse de verdade, que as coisas boas durassem pra sempre e que os amores fossem iguais aos do cinema. Mas só fui mesmo saber do amor quando ele já dividia comigo minha cama. Logo em seguida descobri uma saudade absurda e quando não agüentei mais, quis liberdade do apego, das expectativas e das ilusões. E fiquei assim até o coração sentir tanta falta que deixou transparecer, no espaço entre as frases feitas das noites de festas, que tudo que ele queria era colo outra vez.
21 anos...
E a idade nova trás a ânsia das coisas que ainda não vivi. E também a nostalgia das coisas que já fiz. Viajei, conheci gente nova, andei em baixo de chuva, tomei sorvete direto do pote, dancei como louca, cantei pra espantar demônios, passei no vestibular, larguei o Direito, virei professora e sonhei acordada. Fiz também muita coisa errada. Não soube esperar, perdi a cabeça, chorei fora de hora, falei mais do que devia, esqueci a lógica, ignorei meus sentidos, não vi os sinais de aviso, caí, sangrei e morri por amor. Mas fui lá e fiz! E é isso que importa.
21 anos...E eu não gosto que estranhos me toquem, mas gosto de abraçar os amigos, ganhar beijo nos olhos e andar de mãos dadas. Perdi o medo do escuro, mas o silencio ainda me assusta. Não tenho prática em decifrá-lo e é duro não sentir certeza - por mais que eu goste dos benefícios da dúvida. Desisti de acertar, de provar que estou certa, de me justificar - para mim mesma ou para os outros, e até de ter medo. Mas parei de escrever um livro pelo meio quando achei que pudesse ser processada por alguém próximo.
21 anos...
E olho pra trás e não me vejo, olho pra frente e ainda não cheguei lá. Sinto medo e esperança ao mesmo tempo. As contas começam a entrar por debaixo da minha porta e meus valores e meu caráter a serem cotidianamente julgados - afinal, não existe mais a desculpa da inocência. Mas ainda me é permitido sonhar. Então, mesmo em meio a tudo isso, eu tento. Tento abrir mão do apego à dependência e aprender a ficar mais sozinha. Tento ser melhor, mais justa e mais feliz. Se ainda não consegui, continuo tentando. Um dia eu acerto.
21 anos...
E tudo isso me faz sentir que estou começando a adquirir uma vantagem injusta sobre a menina que eu era.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Presente de aniversário!
Ontem fui na casa dos meus avós comemorar com eles o meu aniversário que está próximo. Minha avó, agitada e ansiosa, me deu seu presente logo quando cheguei. Já meu avô, velhinho e extremamente calmo, não me deu nada. Ao invés disso, sentou do meu lado e começou a conversar. Pensei em como meus avós são pessoas diferentes e perguntei a ele como eles conseguiam manter um casamento há tantos anos. Me olhou meio de lado, sem entender direito o motivo da pergunta, e contou que certa vez foi ao supermercado e viu um pêssego “vistoso”, grande e que aparentava extremamente suculento. Por ser sua fruta preferida, ficou ansioso pra comê-la. Procurou na pilha outro tão bonito quanto aquele e não encontrou. Comprou então o pêssego suculento e um outro que além de menor, não tinha o mesmo aspecto do primeiro. Em casa, lavou a fruta e quando já estava com a faca na mão, desistiu. Trocou pelo pêssego menor, deixando o outro na geladeira para minha avó, mesmo sabendo que ela nem ligava tanto assim pra pêssegos.Terminada a história, vovô se levantou – com a cara sorridente - e saiu. E me deixou ali, sozinha, pensando mais naquela cara sorridente do que nos pêssegos em si. Isso porque aquele sorriso me fez resgatar lembranças da época em que eu morava com ele. Era o mesmo sorriso que estampava seu rosto quando eu e minha irmã éramos crianças e adorávamos ouvi-lo contar a história do “Joãozinho canelinha de ferro” – que ele mesmo havia inventado. Ele era mais forte naquele tempo, fazia exercícios, e sempre nos levava junto quando ia caminhar na praia. Durante o percurso o repertório era o mesmo, a gente pedindo e ele contando a história do menininho que tinha canelas de ferro. E no final a gente sempre ganhava um dinheirinho para o picolé.
Alguns minutos depois vovô voltou. Me viu deitada no sofá, assistindo TV e ele, magrinho, achou um lugar para se sentar ao meu lado. Olhou para mim com a mesma cara sorridente: “Me faz um favor?” - falou, pegando alguma coisa no bolso. “Faço vô, pode falar”. Respondi já imaginando ter que ir à padaria comprar um refrigerante ou coisa parecida. “Toma o dinheirinho do picolé e compra um presente pra eu te dar de aniversário?”. Disse com a cara mais marota que se pode esperar de um senhor de quase 80 anos.
O dinheirinho do picolé se transformou numa blusa linda que fiz questão de mostrar para ele: - Aqui, vô, o presente que o senhor me deu!.
- Ihh! Boniiita!
Meu avô é mesmo uma gracinha... ^^
* Réplica das assinutaras do meu avô e da minha avó.
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O problema entre duas paralelas é que elas só se encontram no infinito...
