segunda-feira, 12 de outubro de 2009

“A sabedoria é algo que quando nos bate à porta já não nos serve para nada" [Gabriel Garcia Marquez]

Quando a gente entende que nascemos sós, morremos sós e gozamos sós, a vida começa a ficar mais fácil....

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sobre as folhas das árvores e eu.

21:40, o chinelo jogado no fundo da sala. Eu, pés descalços, frente à janela, observando a cidade que se move lá em baixo, pensando em como está a vida e tentando me convencer de que o trabalho está bom. A noite tá quente e sem vento. Tudo se move, as folhas das árvores não. Enquanto isso, os carros vão passando e as pessoas no bar ao lado conversam e se movimentam num caos onde tudo parece em harmonia. Na cidade, esta noite, tudo se move menos as folhas das árvores e eu. Aqui dentro, eu vejo o maço, o livro, o chinelo longe e o ventilador que gira devagar, despreza meu calor e me joga um bafo ironicamente quente. Lá fora a cidade em que nasci e onde me sinto estrangeira.




22:17, O calor continua forte, eu continuo não sabendo se o trabalho tá bom e o chinelo continua longe. Pela janela vejo o bar lotado e alguns carros que passam. Bem que um deles podia me levar. Me levar para longe desse calor infernal e desse tédio que me consome. Reviro o maço. Vazio. Deslizo a mão pelo parapeito da janela, fecho os olhos por um instante e tento sentir a cidade. Tento me sentir na cidade. Mas pareço ser parte de um mundo paralelo a ela. Eu e as folhas das arvores que não se mexem. Elas lá em baixo, insensíveis e estáticas frente o caos urbano, ignorando seu meio e contrariando todo o resto que se move. E eu aqui, com meus pés descalços, olhando as pessoas lá fora, pensando que um daqueles carros bem que podia me levar daqui. Me fazer jogar o chinelo no lixo, o tédio para longe e me levar para algum lugar onde eu me sinta em casa, mesmo sendo estrangeira.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rotina

2 horas da manhã. É fácil olhar pra mim e falar que eu sou desequilibrada, mas é ele que só funciona no estopim, quando alguém grita no ouvido dele. Senão ele ficaria o dia inteiro com aquele ar de despreocupado de quem deixa tudo pra depois! Eu só queria o mínimo. Gosto das coisas pequenas. Das pequenas demonstrações de afeto. Gestos mínimos de carinho. Só queria que ele reparasse em minhas roupas, lesse o meu blog ou ligasse no meio da tarde pra perguntar como estava indo meu dia. Essas coisas, simples e que não custam dinheiro. Mas não adianta. Nem quando eu coloco meus vestidos primaveris cheios de cores, quando dou uma caprichada na maquiagem, ou quando uso uma roupa mais decotada pra ver se chama a atenção dele, ele repara em mim. Não me elogia. Ao invés disso, ele chega e reclama que eu estou fedendo a cigarro, ou que estou falando demais. Eu faço tanto por ele. Sempre odiei dormir acompanhada, com gente roubando meu espaço na cama e meus lençóis. E ele mexe a noite inteira. Atrapalha meu sono. Mas nunca falei, nunca reclamei com ele pra que ele não se sentisse mal ou culpado. Eu gosto de futebol e me esforço pra entender tudo sobre o time dele só pra poder conversar sobre coisas que ele gosta. Sou extrovertida e desencanada. Faço amizade fácil. Os amigos dele me adoram. E ele percebe? Não! E agora, quando eu resolvo falar que isso me incomoda, dá nisso: briga. E ainda joga na minha cara que eu brigo por coisa pequena. SIM, por coisa pequena! Estou brigando porque quero as coisas pequenas! Ele liga pelo menos 3 vezes por dia pra mãe dele, porque não pode me ligar pelo menos 1 vez e saber como está indo meu dia ou as coisas no trabalho? E agora ele ta lá dormindo no outro quarto só pra me torturar, só pra jogar na minha cara o nada que restou pra mim. Ele não merece meu jeito, meu gosto, meu tato, meu amor, minha falação desesperada, meu espernear pela casa, meus bicos e nem meus passos barulhentos pelo chão. Amanhã eu vou embora. Vou passar uns dias na casa da minha mãe. Vou fazer ele sentir falta. Vou fazer ele me ver indo embora, de óculos escuros e andando na contramão. Vou me afastar pra ver se assim ele sente falta do meu salto batendo no chão da sala, da minha falação e das minhas manias. Melhor dormir porque a cama estática está me incomodando e amanhã será um longo dia.

4 e meia da manhã. Ela tem esse jeito de só funcionar em alta velocidade e reclama constantemente que precisa de um pequeno caos interno pra poder conseguir escrever. E escreve compulsivamente. Escreve no blog e tenta escrever um livro. Eu a encorajo sobre o livro embora nunca leia o blog dela. Tenho medo do que ela escreve lá. Reclama que não dou a ela o suficiente. Mas eu não digo que ela não precisa daqueles vestidos floridos cheio de cores pra chamar atenção, pra que ela não ache que estou falando mal das roupas dela. Não reclamo quando ela exagera na maquiagem. E nem quando abusa daqueles decotes. O que me deixa louco de ciúmes e raiva, mas não falo. Me esforço pra tentar convencê-la a parar de fumar porque me preocupo com a saúde dela. Na hora de dormir, reclama do mau tempo e do ar condicionado e pede pra desligar o ar e abrir a janela, eu deixo. Depois reclama do barulho do trânsito e fecha a janela. Transforma o quarto numa estufa. E o calor insuportável atrapalha meu sono, me faz rolar por horas na cama até conseguir dormir. Não falo que é estranho ouvi-la falar sobre futebol e nem rio das besteiras que ela fala quando é este o assunto. Aceito seu jeito expansivo e a forma como fala alto e gesticula e me faz sentir invisível quando estou com meus amigos, porque ela fala demais e arranca gargalhadas deles, sem deixar espaço para mais ninguém. E ela diz que não faço o suficiente! Diz que gosta das coisas pequenas. Mas eu não consigo entender o que essa mulher pode querer mais. Tá ai, agora, dormindo. E eu aqui parado na porta do quarto. Tentei ir embora. Porque ela não merece que eu atrapalhe sua vida e suas coisas e nem minha quietude voluntária, nem meu jeito próprio de respeitar seu barulhento andar pela casa. Mas a porta estava aberta e do corredor pude vê-la dormindo, com a franja jogada no rosto e essa calma absurda que só aparece quando ela dorme. Não consigo parar de olhá-la. E é nesse momento de paz onde eu posso ficar em silêncio que ela fica mais bonita. Ela diz que ama as coisas simples da vida. Porra nenhuma! Está sempre querendo um pouco mais, sempre falta alguma coisa. A verdade é que quem gosta das pequenas coisas sou eu, que só quero ficar aqui olhando para ela dormindo e imaginando o que dizer amanhã quando ela vier com alguma historia maluca dizendo que está indo embora pra outro país ou voltando pra casa da mãe.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Vitrines


Confesso não ter me animado muito pra levantar da cama quando abri um único olho, poupando o outro da claridade, e vi que a meteorologia não estava querendo cooperar comigo e tinha mandado mais um dia nublado e quente – daqueles que faz chover a noite. Mas maior do que a vontade de ficar deitada era o calor que estava fazendo. Eu suava tanto que voltar a dormir seria uma tarefa impossível. O cabelo colado na nuca suada, a boca com gosto de travesseiro e a franja em pé, arrepiada como a de um pica-pau. Ao lado da cama, o cinzeiro vazio. Essa nova onda antitabagismo tem me motivado a largar o cigarro. Levantei. E quase uma hora e meia se passaram quando eu, finalmente, terminei a maratona acordar - tomar banho - por uma roupa - tomar um cappuccino – sair de casa – me arrastar até o ponto de ônibus.

Foi difícil, mas pra dar uma ajuda o ônibus passou no segundo seguinte que cheguei no ponto. Entrei agradecendo a alguma força divina pela sorte, e fui me sentar no canto da janela desses bancos mais altos que tem em ônibus. Me distraí olhando as pessoas que passavam pela rua – como quem olha vitrines sem olhar vitrines - e acompanhei o trajeto já conhecido. Só voltei a prestar atenção ao que acontecia no interior do ônibus quando uma pessoa sentou do meu lado. Um rapaz estranhamente belo, ou, belamente estranho. Não soube dizer qual era a ordem correta. Só sei que alguma coisa nele me atraiu a ponto de me deixar desconcertada, sem saber onde pôr as mãos ou para onde olhar.

Ele usava uma camiseta com o escrito: “Engenharia Civil”, um all star branco tão surrado quanto o meu, um boné escondendo o cabelo bagunçado, mochila nas costas e um maço de cigarros na mão. Deve ter uma namorada fofa e peituda que estuda odonto. O suficiente para se tornar o mais novo homem da minha vida. Olhei pra mim mesma condenando meu desleixo matinal e preferi virar o rosto e continuar olhando as pessoas do lado de fora. Olhando vitrines sem olhar vitrines. De repente me vi de mãos dadas a ele. E imaginei como a vida seria. A gente combinaria e formaria um casal feliz e minhas roupas teriam uma gaveta só pra elas no armário dele e ele perderia horas conversando sobre engenharia com meu avô enquanto eu ensinaria a irmã caçula dele a falar inglês. E ele daria risada da minha falação desesperada e a cama ficaria mais quente e ele roubaria meu edredom e eu o acordaria de noite reclamando da insônia ou dos chutes noturnos dele e pediria que perdesse o sono junto comigo. E ele deu o sinal, levantou e saltou do ônibus, enquanto eu permanecia ali tensa, invisível e apaixonada. Ele se foi e nem notou que acabava ali a nossa linda história de amor.

Depois de quase perder o ponto em que eu deveria descer, cheguei na faculdade pedindo colo pras amiga e dizendo que estava me recuperando de um relacionamento intenso. Desisti da idéia de assistir a primeira aula. Sentei na cantina e fiquei ali, parada, me recuperando. Foi quando me deparei com um sujeito de jeans, camisa xadrez amarrotada (aposto que ele tinha acabado de acordar) e havaianas nos pés. E comecei a olhar pro nada, com olhar de quem vê vitrines sem ver vitrines...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Morto-vivo, Vivo-morto.

4:41 a.m

Insônia

(ponto final)

sábado, 12 de setembro de 2009

Semelhança.

"Alice - Mas eu não quero me encontrar com gente louca.
Gato - Você não pode evitar isso, todos nós aqui somos loucos, eu sou louco, você é louca.
Alice - Como sabe que eu sou louca?
Gato - Deve ser, ou não teria vindo parar aqui."
[Lewis Carroll - Alice no país das maravilhas]

* Grandes personagens têm diálogos fantásticos. Pessoas reais têm Diálogos Imagináveis. Fica a dica de blog ;)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

E meu lençol não tinha mais seu cheiro mas meu armário ainda tinha suas roupas...

Despertara? Não sabia ainda. Sentia muito frio, isso sim. Pisquei o olho e encarei por alguns minutos o teto do meu quarto. Estava realmente frio e só por isso resolvi levantar. Meio cambaleando caminhei até o armário e sem prestar muita atenção, puxei uma blusa de manga qualquer de dentro da gaveta. E foi só depois de vesti-la que percebi que não era uma blusa minha. Era blusa de homem. Dei de ombros. Talvez fosse uma das inúmeras peças de roupa do meu pai que veio na mala quando vim morar com minha mãe. Enquanto eu me esticava espreguiçando, vi pela janela que fazia manhã de sol apesar do vento frio. Graças a Deus não vai chover.

Foi quando eu já estava na cozinha preparando uma xícara de café, que minha mãe entrou e perguntou que roupa era aquela que eu estava usando. Ela já estava acostumada a me ver andando pela casa de cueca e samba-canção, ou qualquer outra peça de roupa dos meus ex-meninos (e isso inclui meu pai), mas mesmo assim sempre perguntava por que eu insisto em usá-las e em guardá-las como bibelôs do meu passado. Enquanto me fazia essas perguntas, veio em minha mente o nome do dono da, agora minha, blusa. Fiquei atordoada com a repentina lembrança, mas disfarcei. Respondi que pra mim eram pedaços de pano e mais nada. E que essa história de “bibelôs” não tinha o menor fundamento. MENTIRA. De fato algumas dessas peças são, realmente, só pedaços de pano confortáveis e bons para usar dentro de casa. Mas aquela camisa em especial tinha tempo que eu não via. Ficou guardada no fundo da gaveta tão esquecida quanto o verdadeiro dono dela.

Sem que minha mãe visse, cheirei a manga pra ver se encontrava, impregnado nela, o cheiro de algum perfume. Tinha cheiro de roupa guardada. E nada mais. Claro que depois de tantos anos - quase 4 anos pra ser mais especifica - esquecida no fundo do meu armário, ela só poderia estar cheirando a velho. E foi ali, na cozinha da minha casa, vestida com a camisa com cheiro de velho, que eu parei por alguns segundos pra contemplar o passado. Lembrei do namoro que, enquanto durou, cumpriu seu papel. E isso, agora, já não tinha mais a menor importância. Pensei na minha devoção e no amor imaturo e desmedido. E senti saudades. Não só dele, mas de quem eu era naquela época. E pensei no que aquela menina diria se me visse hoje. De certo me olharia bem no fundo dos olhos e diria, com a voz mais imponente que conseguisse produzir, que de nada adianta a vida se não amarmos ninguém, menos ainda se não amarmos para sempre. E eu a pegaria pelas mãos e – mesmo sabendo que ela não entenderia, optaria em alertá-la. Responderia que de nada adianta a vida se não soubermos seguir em frente, ainda que com o coração partido.

Minha mãe continuava na cozinha, agora falando sobre uma dieta nova que estava pensando em fazer. Balancei a cabeça e sorri, deixando-a que achasse que era um sorriso em resposta àquela conversa – que na verdade eu não tinha prestado muita atenção. Mas eu sabia que eu tinha sorrido um sorriso diferente. Não desses que se da a alguém, e sim desses que se dá pra você mesmo. Sorri pra dentro. E me senti feliz. Demorei tanto pra expurgar de dentro de mim esse passado, e agora o próprio passado ressurge vários anos luz depois, pra me mostrar que entre trancos e barrancos ele valeu a pena. Acordei sentindo frio. E puxei uma blusa de manga qualquer de dentro da gaveta. Uma blusa com cheiro de velho que ressurgiu não só pra me fazer sorrir pra dentro. Mas também pra me mostrar, em alguns segundos em que parei pra contemplar o passado, que o melhor da vida é o tempo!